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GUERRA E IDENTIDADE CULTURAL: VIETNÃ

Janice Theodoro*

"GUERRA – O objetivo é sempre negá-la. Para isso, dispõe-se de dois meios: ou mencioná-la o menos possível (processo mais freqüente), ou dar-lhe o significado do seu próprio contrário. Guerra é então empregada no sentido de paz e pacificação no sentido de guerra"

(Mitologias. Roland Barthes)

Por que os anos 60 conservam, ainda hoje, uma força capaz de despertar tanta emoção e interesse? Que percepções políticas, econômicas e culturais provocam? Por que se transformaram em material cinematográfico? Qual a força, qual a beleza que moveu as personagens desta geração se produzirem com um perfil anti-institucional? Em que a geração dos anos 60 difere daquela outra geração que floresceu nos anos 40 e 50? Seriam os anos 50 marcadamente conservadores e os anos 60 marcadamente rebeldes? Esta unidade foi construída postumamente? Qual o significado da uniformidade estética criada para definir as transformações ocorridas na sociedade americana pós-guerra? Não constituiriam, os anos 40, 50 e 60, juntos, material para uma reflexão sobre o pós-guerra? E, finalmente, qual a relação entre guerra, protesto e identidade cultural? Seja lá como for, ainda que não tenha havido uniformidade de condutas sociais, não é difícil reconhecer o clichê dos anos 60 pela sua enorme capacidade de protesto.

Antes de iniciarmos nossa reflexão sobre estes anos loucos devemos diferenciar: a imagem européia de protesto, a imagem latino-americana do protesto e, principalmente, a imagem norte-americana do protesto. As lembranças não são iguais, como não são iguais as transformações ocorridas no interior da sociedade européia, norte-americana e latino-americana. As crises vivenciadas por diferentes nações não foram equivalentes, nem representaram, obrigatoriamente um amadurecimento, político ou cultural. Neste sentido, é muito significativo que Lennon, herói da geração dos anos 60, tenha escolhido New York para morar e compor o seu protesto, deixando para trás Londres. O que ele pode dizer de New York City ele não poderia dizer de Londres ou outra capital da velha Europa.
 
 

Anos Dourados, Anos Sangrentos

Feitas estas ressalvas poderemos diferenciar as metáforas. Os anos 60 podem ter sido dourados no Brasil e sangrentos para os Estados Unidos. Podem ser mais facilmente esquecidos no Brasil do que nos Estados Unidos. Podem ter remexido no cerne da sociedade norte-americana, mas não creio que o mesmo tenha ocorrido com a sociedade latino-americana. Seja lá como for, como história brasileira ou como histórias dos Outros (norte-americanos, franceses, ingleses etc, etc.), os anos 60 voltam à nossa memória constantemente. As músicas, os filmes, o teatro, a liberação feminina, a paz, o amor e, principalmente, a guerra obrigaram, especialmente a sociedade norte-americana, a refletir fundo sobre a construção de seus valores, reelaborando a constituição de sua identidade. A identidade cultural de um povo não é uma categoria estática, imobilizada no tempo e no espaço.

Embora as movimentações culturais e políticas tenham estado presentes, tanto na Europa como na América, creio que nenhum país foi obrigado, por força da guerra, a repensar tanto sobre sua cultura como os Estados Unidos. Foram anos em que assistimos movimentos pelos direitos civis, movimentos estudantis, movimentos contra a guerra, contra a cultura, contra o consumo, contra a injustiça social, contra o racismo, contra a sociedade de massas, e a favor da paz.

Geração do Contra

Por que a palavra que regeu os anos 60 foi CONTRA? A palavra contra é filha do conservadorismo e do autoritarismo, é filha de uma conjuntura de guerras mas é filha, antes de tudo, do crescimento econômico que transformou a vida da sociedade americana no pós-guerra. Durante os anos 40 e 50 definiram-se os marcos da política externa norte-americana. Foi ela marcada pelo intervencionismo, visando sempre a manutenção do "status quo", de acordo com as negociações firmadas ao findar da II guerra.

Neste sentido, para compreendermos estes anos loucos (e são loucos porque expressam estas contradições) devemos nos lembrar, também, da Revolução Cubana, da Revolução Cultural na China, a sublevações de maio de 1968 em Paris e no resto da Europa, mas, principalmente, da guerra do Vietnã. Todo o invólucro dos anos 60 são guerras, revoluções, sublevações que transformam, em paradigma, os movimentos hippies. A guerra, ao obrigar a sociedade americana posicionar-se contra a política expansionista da União Soviética, no sentido da mudança do "status quo", favorecia a definição e o refortalecimento dos valores típicos da sociedade norte-americana.

O Conformismo e a Melancolia no Pós-Guerra

Os anos 50, freqüentemente são visualizados através de um perfil conformista e enriquecedor. Um momento em que a cultura tendeu a valorizar basicamente os símbolos materiais. A II guerra, comprimindo as possibilidades de consumo, e desgastando psicologicamente as populações em conflito, havia despertado, no norte-americano, a vontade de constituição de um espaço moderno, marcado pela aparência, pela majestade, deixando na lateral reflexões que indicassem a busca de um universo interior, ou ainda uma reavaliação dos valores vitoriosos. A vitória dos norte-americanos na II guerra e na guerra da Coréia, tornava estes valores monumentos da nova ordem.

Para expressá-los na dimensão exata destes novos tempos era necessário revolucionar a expressão estética das cidades norte-americanas. Uma nova era exigia novos projetos capazes de intervir profundamente no antigo padrão urbano. Os projetos de Moses, por exemplo, mantinham proporções capazes de subjugar a natureza humana. As avenidas de expressas eram, enquanto desenho, tão fortemente dedicadas aos carros que, caminhar ao lado delas correspondia enfrentar o vazio de um deserto. Estávamos diante de um país que se fazia a cada dia mais moderno. O modernismo de Moses, transformava o "mundo da via expressa", em um dos símbolos capazes de identificar a cultura norte-americana. Capaz não só de produzir tecnologia de ponta como criar os mitos correspondentes ao seu potencial tecnológico.

Os Estados Unidos, no pós-guerra, ao investir em grandes obras públicas, quebrando antigas formas de organização urbana, conformavam a população a alguns ideais de vida. Criou-se a ilusão de ser possível tornar o homem americano e a sociedade americana inigualavelmente eficiente e justa. Desenvolveram a crença "de que todos os problemas eram passíveis de soluções racionais" e que as questões internas seriam bem resolvidas pelos norte-americanos sem que precisassem olhar para fora. A ciência e o poder se conjugavam, transformando-se em um universal.

Portanto>


Transferência interrompida!

norte-americana voltou-se para dentro de si mesma. A expansão econômica embora tenha sido inferior relativamente à da Alemanha e à do Japão representou um crescimento absoluto de 3% ao ano. O que significou, no estágio em que estava o desenvolvimento econômico americano, a manutenção de uma renda "per capita" alta. A sociedade de consumo se apresentava como um produto tipicamente americano. Prédios majestosos, viagens internacionais, tecnologia de uso doméstico revolucionavam o cotidiano dos americanos. Vivendo a euforia de um consumo crescente acreditaram que a expansão progressiva da economia daria a cada americano, uma fatia maior.

A sociedade norte-americana nos anos de guerra havia se desenvolvido muito. O Produto Nacional Bruto crescera em mais de 60% entre 1939-1945. Os norte-americanos temiam que o fim da guerra representasse o retorno a um período de recessão. Contudo, as flutuações foram pequenas, o índice de desemprego rapidamente decresceu, indicando capacidade rápida de reaquecimento da economia norte-americana. A indústria bélica – que havia se desenvolvido muito nos anos de guerra – transformava-se em uma indústria capaz de responder a demandas domésticas (carros e uma infinidade de eletrodomésticos). A construção civil no final dos anos 40 havia duplicado os índices dos anos 30. Enfim, eram grandes as transformações ocorridas na sociedade à medida em que todo o esforço que havia sido gerado no período de guerras, reverteu-se em direção ao consumo.

"Em 1949, a renda per capita americana era, o dobro da britânica, três vezes a francesa, cinco vezes a alemã, sete vezes a russa. Com somente 6% da população mundial a América do Norte consumia 40% da energia mundial, tinha 60% dos veículos motorizados, 70% dos telefones, 80% dos refrigeradores e quase 100% dos aparelhos de televisão. Os americanos que durante a Depressão haviam sonhado em recuperar a prosperidade dos anos 20, viram-se por volta de 1950, com uma renda per capita 44% acima daquela de 1929. Era o milagre econômico americano. Nenhuma outra nação havia sido tão rica".

Política Externa

Ao mesmo tempo, o final da Segunda Guerra Mundial havia representado um reequilíbrio político a nível mundial. Os russos fixavam suas posições na Europa Oriental, enquanto os Estados Unidos firmavam sua posição de defesa dos sistemas internos de difusão do poder e respeito aos direitos individuais. A situação era bastante delicada o que levou Churchill dizer, em 1946, "uma cortina de ferro" está sendo baixada na Europa. Logo em seguida, em 1947, surgiu a expressão "guerra fria" em meio ao temos que os americanos sentiam ao ver a montagem política e estratégica da União Soviética.

Este foi um momento em que a sociedade americana tomou consciência, plena, da sua força econômica e do papel que poderia desempenhar em nível internacional. Financiou o Plano Marshall e montou um sistema de segurança coletiva, através da OTAN, com vistas ao reerguimento e defesa da economia européia. Era necessário também fortalecer as Nações Unidas, criada em 1945, instituindo um foro (mecanismo de equilíbrio internacional) capaz de controlar as transformações econômico-políticas que vinham ocorrendo e que poderiam afetar os interesses estratégicos americanos.

Os intelectuais dos anos 50, olhavam estas transformações com uma profunda melancolia (A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, é de 1949, o Apanhador no Campo de Centeio de J. D. Salinger é de 1951). O movimento beat (beatitude) foi o primeiro a expressar a crise de uma sociedade que se escondia numa compulsão constante ao consumo, perdendo o seu potencial crítico. A virada em 1953-60, representava a luta contra de uma tendência conservadora onde os jovens preferiam mais lutar pela possível ascensão social do que arriscar suas chances em qualquer tipo de protesto. O comunismo era o grande inimigo a ser combatido, inimigo da liberdade, inimigo do consumo de bens supérfluos, inimigo da livre iniciativa etc, etc. Eisenhower explicitava, em seu projeto político, posição contundente neste combate contra o comunismo. E, seu Secretário de Estado John Foster Dulles, definia como meta o combate aos comunistas, polarizando ainda mais os espíritos americanos em direção à guerra fria.

Frente a este quadro, a identidade da cultura norte-americana organizava-se a partir da valorização dos ideais de liberdade e de igualdade compatíveis com a expansão econômica. A democracia era palavra chave capaz de diferenciar a América de outras nações gerenciadas por um regime comunista.

A Guerra da Coréia

26 de julho de 1950, a Coréia do Sul foi invadida pelos comunistas. Rapidamente, os EUA, com o apoio da ONU, organizou um exército do qual faziam parte a Grã-Bretanha, Austrália, Nova Zelândia, Holanda, França, Turquia, Tailândia e Filipinas. Coube aos Estados Unidos o comando unificado. A auto-determinação das nações precisava ser defendida, contra o expansionismo comunista. E, neste sentido, a guerra fazia parte da luta pela manutenção destes ideais cujo expoente maior eram os Estados Unidos.

Foi uma guerra sangrenta em nome do combate ao comunismo em expansão. A composição das forças de um lado e de outro, davam ao conflito clareza muito grande quanto aos interesses em jogo. Os Estados Unidos, ao ameaçar bombardear as linhas de suprimento chinesas, abria a possibilidade de uso de armas atômicas contra a China, conforme a proposta do Gal McArthur. Hipótese que poderia atrair também a URSS para o confronto.

É interessante notar o crescimento do poderio atômico no pós-guerra. A definição de dois blocos de poder em torno dos quais se alinhavam uma série de países levou os Estados Unidos, mais do que qualquer outro país, a constituir o eixo de sua identidade nacional na luta contra o comunismo. A guerra era o veículo de expressão, a forma com que esta sociedade se defendia da ameaça, sempre constante, do comunismo. A manutenção desta identidade democrática exigia a produção de armamentos capazes de garantir o equilíbrio entre as potências. A bomba atômica ou a bomba de hidrogênio, representaram uma declaração de força e de poder, mas de um poder que não poderia ser utilizado por representar uma ameaça de destruição do planeta. A bomba, neste sentido, correspondeu a possibilidade de estabelecimento de uma sociedade civil ao gerar o equilíbrio de poder entre as potências. Ou seja, relembrando Hobbes, o homem toma consciência da sua impotência através da igualdade entre forças em conflito.

A guerra da Coréia, e depois a guerra do Vietnã ensinam, especialmente à sociedade norte-americana, que o fato de se possuir poder bélico, ou poder de domínio econômico ou, ainda, o poder político, não quer dizer que se tenha, culturalmente, condições de subordinar todas as culturas.

A guerra da Coréia mostrou que o potencial bélico pode levar à extinção de um país ou vários mas que ele não conduz, obrigatoriamente, ou impositivamente a um processo de manipulação, política e cultural, de um país sobre o outro. Através de negociações políticas, com vistas a manutenção de um determinado equilíbrio desejado por diversas partes, a guerra da Coréia teve uma duração restrita se comparada à guerra do Vietnã.

Dizendo de outra forma, os EUA se colocaram no conflito, ocupando o papel, central, de superpotência. Os EUA dispunham de todas as condições tecnológicas para impor sua própria vontade. Mesmo se encontrassem uma nação capaz de resistir e, para isto, fossem obrigados a matar e destruir, a tragédia seria aceita devido à ameaça que o comunismo representava para a sociedade americana.

O armistício, firmado a 27 de julho de 1953 estabelecia uma nova fronteira entre as duas Coréias, dando a Coréia do Sul mais de 3.900 quilômetros quadrados. As Coréias não se unificaram, embora tenha-se chegado ao armistício. A guerra da Coréia, ao findar, deixava a mensagem de que fora contida a expansão comunista.

Estas questões tratadas até agora, e que dizem, a respeito da política externa norte-americana, parecem, quando analisadas em separado, parte de um processo distinto daquele vivido pela sociedade norte-americana nos anos 50 e 60. Resta saber então, como conjugar a temática da guerra com a reconstituição da identidade norte-americana: uma identidade cultural se define no convívio com a diferença. Guerra é convívio inter-cultural forçado. Qual foi a herança que esta guerra deixou? O convívio inter-cultural favoreceu o refortalecimento da identidade americana?

A guerra da Coréia, no contexto da rearticulação das potências no pós-guerra, se apresentou como necessária. Muitos dos soldados haviam sido combatentes na segunda guerra e sabiam da importância desempenhada pelas tropas, sob a égide da ONU, frente ao conflito. Era vital, naquela conjuntura responder ao expansionismo comunista. A guerra legitimava-se frente à sociedade norte-americana porque era necessário garantir o equilíbrio entre as potências.

A rapidez da guerra e as formas em que se deram o conflito reforçou o mito de uma identidade norte-americana movida pelas palavras democracia e liberdade. Este era o argumento central, mágico, capaz de harmonizar as diferenças, entre norte a sul, ou as divergências de interesses entre diversas camadas sociais, e, ainda, a segregação racial. Estes problemas tornavam-se pequenos se comparados à ameaça gigantesca representada pelo comunismo.

Um ano depois de iniciada a guerra da Coréia, as cidade norte-coreanas estavam em ruínas. "O custo foi, proporcionalmente, maior que o da Primeira e Segundo Guerra Mundial. A ONU calcula em 400 mil homens mortos (260 mil sul coreanos, 135 mil americanos e 12 mil de outras nações. As baixas comunistas foram avaliadas em 1,5 milhão".

Esta guerra deixava uma herança para os norte-americanos: tiveram a dimensão do poder que tinham nas mãos, poder de vida, poder de morte.

Bombas de Hidrogênio, Poder, Destruição e Morte

1954. São detonadas 2 bombas de hidrogênio no Oceano Pacífico. Estados Unidos e União Soviética tinham desenvolvido enormemente o seu poderio atômico tornando possível a destruição do planeta. Para defender-se do grande inimigo, Eisenhower procurou apoio na Europa Ocidental. Este esforço resultou em um tratado que criava a Comunidade de Defesa Européia conjugando forças militares da Alemanha Ocidental, Itália, Holanda, Luxemburgo e Bélgica. A Inglaterra, por sua vez, manteve grandes efetivos no continente. A Alemanha Ocidental obteve permissão para arregimentar meio milhão de soldados que seriam comandados pelo chefe supremo da OTAN.

O poderio bélico dos Estados Unidos e da União Soviética induziu a polarização de toda a política em nível mundial. Esta polarização encontrará eco também no interior da sociedade norte-americana. Uma tendência conservadora, contra a regulamentação estatal, contra os excessivos privilégios que desfrutavam os trabalhadores, contra a proteção aos sindicalizados etc. E uma outra, marcada pela presença de intelectuais liberais, contra o novo totalitarismo que se delineava na vida americana.

Este dualismo não impediu o desenvolvimento de uma razão crítica. Para muitos norte-americanos aquela sociedade não era perfeita, estava coberta de paradoxos que precisavam ser colocados à luz do dia, precisavam ser discutidos. A literatura, o teatro a poesia trarão à tona os inúmeros paradoxos da sociedade americana que serão assunto de reflexão de uma minoria crítica.

A guerra da Coréia embora por um lado tenha favorecido uma visão maniqueísta do equilíbrio mundial, havia também deixado como marca a melancolia do poder da destruição. Esta guerra havia tornado transparente a natureza do poder norte-americano: poder de destruição, poder de morte. Esta consciência, ainda que muito tênue, plantou uma dúvida com relação à identidade norte-americana.

Da Guerra da Coréia à Guerra do Vietnã

Contudo, nos anos 60, as antigas conversas de salões dos anos 50 irão eclodir como uma bomba dinamite na casa de todos aqueles que foram obrigados a enviar seus filhos para lutarem na guerra do Vietnã. A guerra, neste sentido, é companheira de Arthur Miller, Norman Mailer, Salinger entre tantos outros. Não se trata de sentir a crise sentado em uma poltrona de um teatro, trata-se de viver a crise existencial num campo de batalha, ou ainda, repartindo um cotidiano em uma cidade distante, habitada por uma população com costumes tão diferentes capaz de colocar com sua pobreza, fome, fragilidade corporal, com o seu sorriso – às vezes irritante – em questão, os valores norte-americanos.

Os avanços da tecnologia que foram apreciados pela sociedade norte-americana como eletrodomésticos, televisão, elevadores etc, etc transformavam-se, no campo de batalha, em armamentos sofisticados que deveriam matar indivíduos defensores de ideais políticos incompatíveis com a democracia.

Contudo, os "vietcongs" que até então faziam parte do mito comunista eram, na guerra, seres humanos que lutavam pela unidade de seu país, da mesma forma com que eles, norte-americanos, haviam lutado na guerra de Secessão.

Embora o "napalm" representasse para o americano que estava em campo de batalha, a possibilidade de voltar vivo para casa, embora sua sobrevivência dependesse basicamente do potencial aéreo capaz de limpar uma área, a experiência do extermínio de qualquer forma de vida, dissolveu, derreteu a onipotência do poder forjada no pós-guerra. O poder para se realizar plenamente precisa do consentimento e qual é o consentimento que os mortos podem nos dar?

Neste sentido, existe uma equação que envolve elementos como a guerra, a bomba, o poder, a morte cujo resultado poderíamos chamar de tomada de consciência. Os anos 60, diferentemente dos 50 representaram, nos Estados Unidos, o questionamento de todas a gamas de relações sociais a nível internacional. A guerra muitas vezes, aproximou segmentos da sociedade norte-americana que não conviviam. Tornou clara algumas diferenças. Vivendo cotidianamente no Vietnã, por vezes descobriram afinidades, harmonizaram diferenças, desvendaram a violência que tinham dentro de si e os limites da liberdade em um regime democrático. Uma reflexão profunda sobre o poder econômico e político que manipulavam, sobre o sentido da diversidade cultural. Longe dos seus amigos, da sua família, da sua cultura, o norte-americano indagou sobre si mesmo, sobre a relatividade dos seus valores, sobre a relatividade de uma identidade nacional e política. Perderam a identidade com o Estado e com o poder mas fortaleceram, ainda mais, sua cidadania. O fantasma da expansão do comunismo foi minimizado e o fantasma da liberdade questionado.

Da Objetividade dos Anos 50 à Subjetividade Solitária dos Anos 60

Os anos 60 não foram loucos, obscenos, sensuais ou impregnados de drogas. Foram anos bem menos pornográficos que os anos 50 ou 40. Foram anos de busca do amor, da paz da alegria, das sensações visuais, corporais. Foram anos de extrema solidão. Anos tumultuados pela guerra e pela morte e pela descoberta de que nem todos os problemas com que uma sociedade convive são suscetíveis de soluções racionais. Anos de irreverência aos preceitos ordenadores de Platão e Descartes. Anos de valorização das percepções românticas, visuais. Anos televisivos. Kennedy forjou uma imagem política muito adequada à visualização de massas. Suas palavras, sustentadas por uma imagem adequada a uma grande personagem histórica, comoviam mais, pareciam colocar sangue novo na vida política americana.

Kennedy convidava, em 1960, todos os americanos para partilharem do seu desafio:

"Estamos hoje, à beira de uma nova fronteira de oportunidades e perigos desconhecidos..., Peço a cada um de vocês que seja o pioneiro nesta Nova Fronteira".

A economia norte-americana tinha vivido um período de grande expansão na década de 50, provocando melhoria nas condições de vida mas, estas mesmas melhorias haviam aprofundado as desigualdades sociais.

Kennedy tinha razão quando dizia – "Nova Fronteira" – havia alguma coisa de novo acontecendo que ele mesmo não podia explicar, mas do qual se tornara expoente. Não era difícil ver como a imagem da América, de um modo americano de viver, difundia-se pela Europa reconstruída, graças, em parte, ao plano Marshall (13 bilhões de dólares – valores históricos e 130 bilhões de dólares em valores correntes). De qualquer forma a imagem Nova Fronteira caracterizava uma preocupação do jovem Presidente em transformar a sociedade norte-americana e de exportar a sua imagem. A metáfora do Presidente é extremamente significativa. Fronteiras é um tema imperial. Um império ou, melhor dizendo, uma política imperial no antigo sentido (século XVI) é aquela que procura expandir-se sempre. Kennedy contrapondo seu perfil, ao de Eisenhower, queria marcar um novo estilo, uma nova maneira de articular a política interna e a externa, desenhando seu perfil como herói de uma nova era.
 
 

John Kennedy Personagem Símbolo dos Anos 60

20 de janeiro de 1961. Embora a porta dos anos 60 já tivesse sido aberta pelo rock e por Marlon Brando, coube a Kennedy, como presidente dos Estados Unidos, fazê-lo oficialmente.

A América de Kennedy era uma nação com 180 milhões de habitantes muitos dos quais viviam em bairros afluentes das grandes cidades dispondo de uma boa oferta de empregos. No início dos anos 60 "nove em cada dez famílias tinham aparelho de televisão e quase 3 quintos delas tinham carro. A renda familiar estava acima de 6 mil dólares, quase 50% mais alta que na década de 50. O crescimento demográfico era muito grande e a média de vida de 60 anos (para 1930) passa para 70 em 1960".

Crescimento Econômico e Desigualdade Social

O Produto Nacional Bruto da América havia subido de 285 bilhões de dólares em 1950 para mais de 500 bilhões de dólares em 1960. Contudo, as camadas sociais inferiores, (20% inferiores) recebiam 4,9% de toda a renda e as camadas mais altas (20% superiores) recebiam 42%. Ou seja, o crescimento econômico acent

uou mais as desigualdades sociais. Estes desequilíbrios vinculados a profundas transformações urbanas, que geravam o acúmulo de populações pobres em determinadas áreas urbanas e suburbanas, trouxe para o cidadão norte-americano consciência clara da desigualdade. A sociedade americana desde o seu período colonial havia desenvolvido a idéia de que todos os homens eram iguais perante a lei. Contudo esta frase transformou-se mais num direito formal que numa realidade social.

Não apenas a sociedade americana discriminava negros, latino-americanos, caribenhos mas, especialmente, a guerra discriminava, colocando lado a lado homens igualmente americanos mas que jamais partilhariam de um mesmo cotidiano se a guerra não os obrigasse. Por entre as desigualdades étnicas surgiam as marcas sociais e por entre as marcas sociais as diferenças de formação, valores, crenças. A unidade que julgavam existir entre si não passava de uma fantasia. As contradições que traziam consigo eclodiam, diante de uma outra cultura, de uma sociedade que deveria ser considerada inimiga mas onde, os valores de alguns (nativos), às vezes, pareciam expressar semelhança com seus ideais. E o comunismo que tanto temiam, deixava de ser um monstro em expansão, para apresentar-se como uma decisão política da população do Vietnã com respeito ao seu próprio território.

A morte do Presidente Kennedy, em novembro de 1963, em Dallas, ao mesmo tempo em que é trágica carrega uma força expressiva capaz de conter a crítica ao ambicioso projeto norte-americano do qual Kennedy era o expoente: Nova Fronteira.

Lyndon Johnson assume o poder, procurando apoiar uma série de movimentos por direitos civis e igualdade social. Em Washington duzentos e cinqüenta mil pessoas ouvem Martin Luther King. Ao mesmo tempo a Guerra do Vietnã não apenas prosseguia como tornava-se, a cada dia, mais brutal. Os recrutamentos aumentavam, levando à guerra filhos da classe média e alta. Estes por sua vez engajavam-se em movimentos de protestos insatisfeitos com a destruição que eram levados a realizar.

Tornava-se cada vez mais difícil partilhar da América "oficial". A crítica cultural era feita por aqueles que iam à Universidade, por aqueles que vinham da guerra, pelas imagens daqueles que tinham ido e voltado mortos da guerra, por aqueles que se viam prejudicados pelo racismo, por todos aqueles que desconfiavam das ambições políticas que tornavam a guerra necessária. Por uma sociedade que, de fato, colocara em xeque seus valores.

Em 1964, Lyndon Johnson obtém do Congresso maior autonomia para decidir sobre a guerra. Opta por uma política de ataque e aumenta os efetivos norte-americanos no Vietnã. Assim, através de números, procura demonstrar sua força. Não teve sensibilidade política, ou antropológica, para perceber que o convívio prolongado das tropas americanas no Vietnã havia iniciado os jovens americanos em uma nova percepção da história que viviam. A possibilidade de um convívio inter-cultural que não envolvesse obrigatoriamente a destruição poderia se apresentar como meta política. Ou ainda, nestes longos anos de guerra a sociedade americana descobriu, fora da universidade, nos campos de batalha e no convívio com populações com raízes culturais distintas, que uma cultura pode florescer, desenvolver-se, criar e transformar seus padrões de identificação, sem os mitos do perigo de extinção do seu acervo cultural. A história do equilíbrio mundial não precisaria sustentar-se à custa dos temores gerados pela guerra fria. Ou seja, os norte-americanos não precisavam forjar a sua identidade à custa do "napalm", do cheiro de gasolina e da terra devastada. O "napalm" e a destruição davam a todos norte-americanos uma identidade de difícil reconhecimento. A cultura norte-americana, a custa da guerra do Vietnã, reviu como nenhuma outra, a idéia de poder.

Esta é a questão substancial que o tema guerra e identidade cultural nos coloca na atualidade. Os americanos mobilizaram suas antigas tradições culturais questionando o papel do Estado. O cidadão norte-americano reivindicou sua participação no cenário político questionando as formas de institucionalização do poder. O que o filme "Hair", por exemplo, nos mostrou foi o uso do poder sem que a sociedade o considerasse, adequado e justo. O poder que, de início, se apresentava como legítimo, transformava-se em ilegítimo à medida em que cada cidadão insatisfeito com a atuação do Estado, considerava anulado o "direito" que idealmente dispunha para defender a sua vida.

Existencialismo e Guerra

Diz Sartre:

"O fim da guerra, é simplesmente o fim desta guerra. O futuro não está comprometido: não acreditamos mais no fim das guerras... Mas é preciso arriscar. A guerra expirando, deixa o homem nu, sem ilusão, abandonado a suas próprias forças, tendo compreendido enfim que só pode contar consigo mesmo".

Toda esta polêmica desenvolvida na Europa, em meios acadêmicos foi vivenciada pela sociedade norte-americana através da guerra do Vietnã. As idéias expressas por Sartre são filhas do pós-guerra: ausência de normas transcendentes, falta de um referencial único que formulasse um sentido para o caminhar da humanidade. Para Sartre a angústia que despertava a guerra não deveria levar ao desespero mas à definição de uma ação. A guerra, para ele, deveria se limitar à descrição do vivido e não a busca de uma razão sedimentada em uma verdade histórica.

A riqueza dos anos 60 esteve em grande parte contida na descoberta de um mundo paradoxal. Os limites entre bem e mal tornaram muito mais fluidos durante a guerra. Os ideais humanistas que os democratas embalaram em seus discursos eram aqueles que haviam levado os Estados Unidos à guerra. Kennedy havia potencializado em seu discurso político a "Nova Fronteira" e Johnson a "Grande Sociedade", uma retórica que não encontrava correspondência na ação que eram obrigados a desenvolver na guerra.

O auge da contradição correspondeu ao ano de 1968. Ano que marcou o apogeu da contracultura e a eleição de Nixon. Da mesma forma que os movimentos de contra cultura cresceram com uma rapidez extraordinária durante os anos 60, decresceram, com mais rapidez ainda, a partir de 1968. O que teria levado à rápida desmobilização do movimento? Os protestos diminuíram à medida em que muitas reivindicações foram atendidas. Criaram-se mecanismos legais impedindo a discriminação étnica, protegendo as minorias, e, permitindo que as manifestações de protesto encontrassem canais de expressão. Mas, o argumento decisivo na desmobilização das massas foi a retirada de grande parte do contingente americano que se encontrava no Vietnã.

O mais pungente, para repensarmos a questão da identidade cultural americana na década de 60, é avaliar o que representou para a sua história o momento em que Nixon ignorou o conteúdo moral do protesto conseguindo dar dois golpes de "realpolitik": romper a política de alianças do Vietnã do Norte trazendo para o seu lado China e URSS. Esta estratégia de esvaziamento militar acentuou uma aproximação entre os interesses do Vietnã do Norte e os movimentos "undergrounds americanos".

Cinema e Televisão. Vitória das Imagens na Guerra do Vietnã

Os "rebeldes" da contra cultura embora fossem incapazes de compreender o significado da vida e da morte, da guerra e da paz para o "vietcong", se apaixonaram pela causa que defendiam. A filmografia que tratou da guerra do Vietnã, mergulhou fundo nas emoções dos combatentes diluindo o "vietcong" na floresta, transformando-o em parte da natureza, às vezes selvagem, às vezes inocente, sem penetrar nos projetos políticos em questão. A vitalidade da ação desenvolvida pelas personagens norte-americanas é surpreendente e, em contraposição, o inimigo é paisagem.

A guerra, apesar da proximidade física, não conduziu o norte-americano a um reconhecimento político e cultural do Outro. As denúncias, contra a guerra cresceram na medida em que os documentários, procurando ser realistas, concentravam a carga visual da mensagem emitida, em cenas onde os combatentes eram violentados em sua integridade física, corporal. Corpos despedaçados, eram imagens incapazes de representar o conteúdo político da guerra. A violência estampada no corpo de um americano ferido indicava interferência no que cada cidadão possuía de mais privado, valor profundamente respeitado pela sociedade norte-americana.

A guerra, expressão dos interesses de uma nação, representa um momento excepcional na história de um povo em que se diluem as vontades individuais, para que se execute, as determinações de uma coletividade representada pelo Estado. Contudo, não foi fácil diluir as vontades individuais em nome de um interesse coletivo e despersonalizado. A violência das imagens vivenciadas e reproduzidas sistematicamente nos noticiários da época, cristalizaram o horror da guerra tornando, impotente e destituído de significado qualquer explicação política que justificasse o confronto. As imagens de violência eram tão pungentes que levaram grande parte da sociedade norte-americana a repensar o significado de sua existência e o de sua própria cultura. Frente a este quadro de perplexidade quanto a guerra, o Congresso, em 1972, se viu pressionado, decidindo cortar parte das verbas necessárias à manutenção de grandes contingente norte-americanos no Vietnã. E, em 1973, dando continuidade a esta política de recuo, proibiu os bombardeios tornando inviável a permanência dos norte-americanos no Vietnã. Este gesto despertou no general Westmorland a seguinte exclamação: - "a televisão foi o nosso maior inimigo".

As críticas constantes elaboradas pelos combatentes americanos, acompanhadas de imagens reproduzidas diariamente pela imprensa para toda a América, Europa, Ásia etc, referia-se basicamente ao sujeito que desenvolvia a ação e não ao móvel político que havia gerado a necessidade desta ação. Embora o que a política mais denunciou antes da guerra, durante a guerra e depois da guerra tenha sido o combate ao comunismo, não foi esta a imagem que chegou às telas. Porque para concebê-la cenograficamente seria necessário conhecimento do Outro e não do mito, comunismo. Neste sentido, Hanói conta com um aliado que é o pensamento crítico, sustentado por um forte individualismo, produzido pela sociedade norte-americana, nos anos 60 (vejam, por exemplo, Apocalipse Now), com o qual Nixon teve que se confrontar.

A televisão, o cinema, o documentário jornalístico valorizam o indivíduo. Compõe uma narrativa onde o que aconteceu uma vez só continua se reproduzindo, se multiplicando com tal intensidade que todos os consumidores das mesmas imagens passam a pensar exatamente igual. Constitui-se uma univocidade quanto à forma narrativa. O pensamento crítico com relação a guerra do Vietnã foi composto unilateralmente por um narrador que viveu a guerra. Dado o vigor da sua experiência real, a seleção, por ele elaborada dos eventos histórico, transforma-se em uma narrativa que se apresenta como inquestionável.

Embora a cultura norte-americana possuísse a melhor aparelhagem para produção e reprodução de imagens ao constituir uma linguagem televisiva ou cinematográfica abriu mão da possibilidade de elaboração de uma crítica plural. Para realizá-la seria necessário rever a relação entre a imagem produzida e o papel heróico do narrador e, a partir deste patamar revolucionar o foco narrativo.

Heróis e Anti-Heróis em Cena

A década de 60 começou com um herói, John Kennedy e acabou com um anti-herói, Nixon. É mais fácil se quisermos compor uma narrativa, valorizando a contra cultura eleger como herói desta década John Kennedy. A personagem Kennedy auxiliou a composição de uma identidade americana sustentada pelo mito romântico da liberdade, princípio universal, absoluto, atemporal, criador, a cada momento, de produções novas e originais. Kennedy fez com que cada americano acreditasse no progresso da Nação, no papel libertador que poderia ter em âmbito mundial. Mas, nem ele, nem o seu sucessor puderam resolver a injustiça social presente na sociedade americana. Injustiça que a guerra polarizou mostrando que nem todos eram iguais, especialmente na guerra.

Os movimentos de protestos demonstrava os estreitos limites da liberdade individual e colocava dúvidas quanto aos significados de uma sociedade mecanizada, burocratizada e desumanizada. Ou seja, os anos 60 favoreceram uma crítica profunda aos valores do liberalismo americano mas, tenderam para um idealismo moral.

A grande virada foi dada por Nixon à medida em que ele preferiu deixar na lateral os conteúdos morais considerados irrelevantes e perigosos na grande competição entre nações e optando por negociar a paz no Vietnã.

No papel de anti-herói, Nixon habilmente desmobiliza a oposição tanto a nível externo quanto a nível interno. Gerencia, não o papel romântico contido em uma declaração de guerra, necessária para a manutenção das liberdades individuais e ao combate ao comunismo, mas, ao contrário, gerencia com um realismo doído, uma dificílima saída da guerra. Visita a China em fevereiro de 1972 e assina poucos meses depois em Moscou o primeiro Tratado de Limitação de Armas Estratégicas. A sua difícil atuação nos lembra a frase de Sartre para o qual o homem é um Deus falido. O realismo da política do anti-herói Nixon não oferecia certezas. Estávamos diante de uma era de incertezas, diante de um Estado com o qual os norte-americanos não se identificavam. As relações entre a Presidência e o Congresso eram difíceis, indo se encerrar no caso Watergate.

Este anti-heroísmo foi desmobilizador da dinâmica extremista dos movimentos de contestação. A guerra havia, de fato, calado fundo na história americana. A crítica às instituições despertava, novamente, a fé no indivíduo ao mesmo tempo em que a história revelava, tragicamente, a morte de um milhão de homens no Cambodja (pós-guerra do Vietnã) comprovando as pretensões expansionistas do Vietnã do Norte em relação ao Laos e Cambodja. A teoria do dominó, bastante questionado especialemente no final da guerra, havia levado os EUA à guerra para defender-se do expansionismo sino-soviético. Após os conflitos no Cambodja, confirmou-se como parte da verdade. Dentro da ótica norte-americana era compreensível o estabelecimento de um esquema estratégico no sudoeste asiático para deter o avanço do comunismo. Mas, ao mesmo tempo era também legítima a luta do Vietnã do Norte para reunificar toda a nação Indochinesa. Como na tragédia grega não havia possibilidade de encontro.

A guerra havia transformado a relação entre o indivíduo e o Estado. Haviam descoberto na guerra que nem todos os americanos eram idênticos e que a identidade nacional era uma configuração formal e basicamente política. Ao findar os anos 60, a sociedade norte-americana acreditava mais na paz do que na guerra, acreditava mais nas negociações diplomáticas do que no uso da bomba atômica, acreditava não ser mais necessária a guerra, fria ou quente, para que pudesse conservar os seus valores culturais. A identidade cultural americana amadureceu exatamente porque não precisava do confronto, da negação, para existir. Esta foi a herança deixada pelos anos 60. Sem apoteose final, sem dogmatismos absolutistas, os anos 60 permitiram um reconhecimento da ambigüidade do próprio bem, capaz também de originar o seu contrário. A dúvida foi o novo ingrediente incorporado a identidade norte-americana nos anos 60.

*Livre Docente/Associação em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP.

Fonte: CeVEH